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‘A idade me trouxe a clareza do viver’

Perto dos 75, Marília Gabriela nunca esteve tão livre, leve e solta

16/01/2023
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Ela completará 75 anos em maio e vive um dos melhores períodos de sua vida. Foto: Reprodução/Internet

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Quem lê esta entrevista de Marília Gabriela, ou Gabi, percebe que a maturidade está fazendo muito bem  à atriz, apresentadora e cantora.

“Estou tranquila pela primeira vez. Leio, vejo filmes e viajo quando quero,” revela, mostrando que a idade trouxe o que mais preza: a liberdade, inclusive para dizer não.

Na conversa com Mariana Rosário, de O Globo, Gabi conta de seu projeto de escrever um livro de memórias. E quando a repórter pergunta se fazer 75 a incomoda.  A resposta é imediata:

“O que tem me incomodado é o desaparecimento de pessoas com idade próximas à minha. Então, me vem certa vulnerabilidade nesta observação. Começo a pensar: “Daqui a quanto tempo? Qual a minha probabilidade?”

Leia a entrevista:

Marília Gabriela ri ao ouvir a comparação de que entrevistá-la seria o equivalente a chamar a rainha Marta para “bater uma bolinha”. Apesar da gargalhada, a jornalista, que neste 2023 completa 75 anos, não ignora a própria trajetória.

Diz que entrevistou todo mundo que quis e, portanto, está um “bocado cansada” de compromissos profissionais e de uma vida social badalada. Tem buscado o prazer em ser uma pessoa livre de agendas rigorosas e apta a se lançar às leituras e aos filmes que sempre quis. “Cheguei a me emocionar vendo o documentário da Selena Gomez”(atriz e cantora americana), confessa.

Apesar da calmaria, sentiu um comichão nos últimos meses para entender a louvação ao redor de influenciadores digitais. E preparou uma série no YouTube, com investimento próprio, para receber nomes relevantes do metiê.

Ficou bravíssima ao notar que alguns de seus seguidores reprovaram a ideia. Faz mistério se vai voltar ao trabalho, e confessa que alguns lapsos recentes de memórias a fazem ficar de fora do mercado e a valorizar a tranquilidade e uma diminuta palavra: o não. Manda também um recado aos críticos: “Estou viva”.

Ainda ladeada do paradoxo entre gostar de conversar com as pessoas e uma profunda timidez, abraçou a solidão após às 18h, quando só tem a si mesma de companhia. Aproveita o momento mais, digamos, recluso para começar a escrever o seu livro de memórias.

Na conversa a seguir, adianta algumas e fala sobre culpa materna, críticas que recebeu nas redes sociais e a vida aos quase 75 anos. “Falei exatamente o que você esperava, não é?”, divertiu-se. Abaixo, os melhores trechos.

Por que voltar com um programa de entrevistas justamente com influenciadores?
Fiquei curiosa em saber quem são essas pessoas, de onde vem o poder extraordinário de ter milhões de seguidores que te amam, te idolatram. Achei todos ótimos. Fiquei possuída quando menosprezaram alguns. No meu Instagram, diziam que adoravam minhas entrevistas mas se recusavam a ver essas, especialmente com o MC Cabelinho. São pessoas que não param para pensar que eles devem ter algo de especial para ter tanta gente os seguindo.

Vai continuar?
Adoro falar com outras pessoas para conhecê-las e para me reconhecer nelas. Acho que o mecanismo que me levou a fazer o que fiz até hoje na vida foi esse de me procurar nos outros. Esse programa, como foi, talvez não faça mais. Mas como tem meu filho (Teodoro) e mais um monte de gente envolvida, se tiver patrocínio — porque é uma brincadeira caríssima — sou capaz de fazer novas entrevistas. Mas com outro tipo de gente.

Não é sua primeira tentativa na internet…
Em 2016, tive outro programa no YouTube e não deu certo. Eu errei e parei numa boa. Fui fazer outras coisas.

Como o teatro, por exemplo?
Sabe que até tinha comprado um espetáculo novo, quando fui aos Estados Unidos, em 2019. Uma peça sobre a Virgina Woolf e a mulher que ela amou a vida inteira (a poetisa Vita Sackville-West). Desisti porque não era justo estar começando uma carreira e ocupar um espaço, sendo que havia tanta gente precisando fazer teatro. Sou correta nesse sentido. Agora mesmo, estou com um convite, para daqui a dois anos, vamos ver… Embora não saiba o que acontecerá comigo em 2025 (risos).

Há novos planos para 2023?
Vou viajar e encarar meus demônios para tentar escrever um livro de memórias esparsas. Mas, como boa geminiana, não sei ainda o tema central.

Em maio, você completa 75 anos. o número incomoda?
O número não me incomoda, vivi até aqui intensamente. O que tem me incomodado é o desaparecimento de pessoas com idade próximas à minha. Então, me vem certa vulnerabilidade nesta observação. Começo a pensar: “Daqui a quanto tempo? Qual a minha probabilidade? Como se dá isso?”. Agora, entrei na zona do às vésperas de (risos). A idade me trouxe a clareza do viver.

Você diz gostar muito de conversar, mas também afirma ter muito apreço pela solidão. Como?
Já que trabalhei tanto, confundi a vida social com o meu ofício. Então, sempre voltei para casa e me tranquei. Sou péssima socialmente, não sei como me portar. Isso de não ter cultivado meu lado social me pesa um pouco.

Como lida com a solidão?
Comecei a regular ao que assisto na TV, por exemplo, porque dependendo do que escolher, aproveito para chorar tudo o que tenho para chorar, o que inclui a solidão.

Você já disse que o êxito profissional é um casamento com a culpa, ainda sente isso?
Eu sou a culpa em pessoa. Quando fiquei muito conhecida, os convites que mandavam na minha casa eram todos só em meu nome, não incluíam um marido. Quando algo me interessava muito, copiava a letra e botava o nome do meu companheiro no envelope e dizia que “nós fomos convidados”. Sentia culpa por ganhar mais dinheiro do que meu pai, um funcionário público. Sou a rainha da culpa quando o assunto são meus filhos (além de Teodoro, ela é mãe de Christiano Cochrane), para quem quis dar uma vida melhor. E há, é claro, a vontade da profissional que quer se realizar. É a culpa sobre a culpa. Só que não podemos nos esquecer que realizar-se é revolucionário.

O conflito deu o tom das últimas eleições presidenciais. Como enxerga isso?
Atravessamos um apagão de tudo que não seja ofensa contra o outro lado. Sem argumentação no geral e em cima de fatos políticos. Como isso pode ser melhor daqui pra frente? Não sei.

Talvez não haja outra jornalista que passou por um escrutínio público sobre a vida pessoal e a aparência física tão intenso quanto você. Isso afetou a sua autoestima?
Sobrevivi. Estou aqui, mas acho que me machucou muito e muito inutilmente. Porque a reação é: “Ah, é? Vou mostrar até onde vou”. Essa é a maneira como reagi. Fui julgada, mas já nem me lembro mais pelo quê. Vou lhe dizer uma coisa: foda-se. Estou viva, começando a aproveitar, com culpas, mas tenho controle do que faço, tenho escolha. Escolho o prazer, a curiosidade, quero aprender o que me falta. E ainda assim até hoje de vez em quando me bombardeiam em alguma rede social.

Parece que está num momento de descoberta da vida. O que é isso exatamente?
Meu senso de humor está mais presente. Estou mais leve, até no relacionamento com os filhos. Agora consigo calar a boca quando eles vêm me contar alguma frustração. Sou mais capaz de não interferir em algo que eles podem resolver.

A pandemia foi muito difícil para você?
Fiquei sozinha em casa nos três primeiros meses. Em algum momento, comecei a comer muito mal à noite e, a partir daí, comecei a degringolar. Comia pipoca e só, porque não aguentava mais lavar panela. Juro, estou sendo honestíssima. Tudo resultou em uma manhã em que acordei e achei que estava morrendo. Tentava levantar e caía no chão. Fui diagnosticada com VPPB (vertigem posicional paroxística benigna, um distúrbio da orelha interna).

E parou por aí?
Depois, em Portugal, escorreguei fazendo pilates. Meti a cabeça na quina de uma porta. Ainda lá, caminhando naquelas calçadas e olhando para baixo, dei de cabeça numa placa. Tudo isso para dizer que fiquei meio prejudicada em algumas memórias. Penso nos nomes, mas eles não vêm. Isso colaborou para que eu ficasse mais quieta. Já fiz todos os exames, não tenho doenças degenerativas. Mas fiquei prejudicada depois do VPPB e dessas pancadas. Isso também é um dificultador no que faço. Mas não me deixa triste.

Você tem fome de quê? Vontade de quê?
De nada. Estou muito bem. Não sei se dá para acreditar, mas estou tranquila pela primeira vez. Leio, vejo filmes e viajo quando quero. E aí, quando tive vontade de ler e ouvir falar tanto dessa nova gente, decidi entrevistar os influenciadores.

Onde está a sua libido, que é energia vital?
Em todas essas atividades que resolvi fazer na vida. Fico bem com as meninas (que trabalham comigo). Depois das 18h, ninguém me liga, fico só. Nas viagens sinto prazer. Quando os filhos se reúnem, é uma maravilha, teatro é outro prazer.

Isso é inédito para você?
Sempre fui ligada à compromissos cartoriais. Além de trabalhar, viajava para atividades comerciais em outros estados, queria melhorar nossa vida, minha e dos meus filhos. Hoje em dia, posso dizer não. E é tão gostoso. É tão gostoso dizer “não quero”. Estou adorando esta fase. Não fico sentada pensando no que perdi.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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