
Márcia Lage
50emais
Quanto vale um amigo? Não sei. Os que tenho eu ganhei. Não estão à venda e não têm preço.
Recebi essa mensagem, ilustrada com os personagens da série Peanuts (Snoopy, Charles Brown e seus companheiros de aventura) na manhã do dia 20 de julho, enviada por um amigo de mais de trinta anos.
Naquele dia em que se celebrava a amizade, eu estava na estrada, com duas amigas mais recentes, conquistadas entre 2023 e 2024, quando morei em Caxambu, no sul de Minas.
Duas mulheres admiráveis por suas lutas e suas conquistas. Elas me ajudavam na logística de catar algumas coisas que ficaram para trás quando me mudei, no início deste ano, para Aracaju, capital de Sergipe.
Duas caixas de utilidades domésticas e uma mala de roupas de inverno que eu havia deixado aos cuidados de um outro novo amigo, a quem passei o apartamento onde morei na cidade mineira das águas minerais.
Três meses depois, esse amigo nos surpreendeu com um infarto e se despediu para sempre. A dona do imóvel se dispôs a guardar meus pertences até meados deste ano.
Nesse ínterim, me desfiz de uma casa em Paraty, com alguns objetos presenteados por amizades que fiz nos 10 anos em que morei naquela cidade. Infortunadamente, alguns deles também vieram a falecer recentemente.
Essas perdas todas me deixaram dividida. A parte de mim que detesta acumular tranqueiras ficou querendo guardar os presentes que eles me deram. A outra parte queria se desapegar de tudo, como sempre fiz. Recomeçar do zero em algum lugar que ainda não sei onde, numa casa que talvez construa, adequada aos novos tempos.
A logística acumuladora não é nada simples. Mas saiu vencedora no embate entre a razão e a emoção. De Aracaju liguei para as amigas, pedi pouso por uma noite e a picape para fazer as mudanças, tudo incluído num pacote de férias para elas: conhecer Paraty e Conservatória, onde outra amiga, de mais de 40 anos, me emprestaria um cômodo na fazenda para eu guardar as tralhas até decidir onde morar definitivamente.
No meio da trabalheira, nos divertimos. Carregamos caixas, malas, bicicleta. Fomos a praias, restaurantes, lojas de artesanato e a apresentações culturais. Lemos, conversamos, ficamos de mal humor, demos risadas, cozinhamos, fizemos café, ouvimos música e notícias do Brasil e do mundo e nos despedimos depois de uma semana juntas.
Elas me deixaram no meio da estrada para o Rio de Janeiro e seguiram para Caxambu. Ambas são ambientalistas, uma já construiu sua casa de barro numa ecovila, e a outra segue o mesmo caminho, num outro projeto coletivo em desenvolvimento.
Esse sonho de viver em harmonia com a natureza, num ambiente de solidariedade e de produtividade para o consumo próprio, nos uniu desde que nos conhecemos. A viagem fortaleceu meu desejo de voltar a morar no campo mais uma vez.
O dia do amigo foi uma experiência transformadora. Mostrou na prática a confiança que esse sentimento traz para as nossas vidas. É como uma barra de segurança num banheiro escorregadio, nos protegendo das quedas e da solidão.
Meu desapego entendeu o porquê de resgatar e guardar os badulaques que amigos me deram. É uma maneira de conservá-los junto a mim nas próximas casas que eu habitar, como pôsteres na parede a me dizer: amizade não tem preço!
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