
O dia em que descobri o prazer de desmarcar um compromisso
Foi depois dos 50 que comecei a suspeitar de uma coisa importante: talvez a civilização tenha exagerado um pouco na ideia de que estar presente é sempre uma virtude.
Nem sempre é.

Foi depois dos 50 que comecei a suspeitar de uma coisa importante: talvez a civilização tenha exagerado um pouco na ideia de que estar presente é sempre uma virtude.
Nem sempre é.

“Eu tinha 57 anos quando entendi que não era ciúme, era vigilância”, conta Marta, nome fictício, administradora, moradora São Paulo. Ela descreve um casamento longo que, por fora, parecia estável. Por dentro, o controle foi fechando as saídas: cobrança por horários, críticas que viravam humilhações, brigas por dinheiro, pressão para reduzir contato com amigas. “Quando eu falava em me separar, ele dizia que eu não ia conseguir me sustentar e que ia ‘resolver do jeito dele’. Passei a dormir com o celular na mão.”

Desde que Glória Pires, aos 57 anos, decidiu parar de pintar os cabelos e assumir os fios grisalhos, em 2020, depois de gravar a novela Éramos Seis, na Globo, toda entrevista que dá, tem sempre que responder a mesma pergunta: por que você optou por deixar os cabelos brancos?

A cena é comum. Um barulho de taças, um abraço demorado, um casal entrando junto numa festa. Ela, elegante, segura, rindo com vontade. Ele, mais novo, sem pedir licença para existir ali. Aí vem o comentário, quase automático, dito como quem fala do tempo.

A separação de Ivete Sangalo, 53, e Daniel Cady, 40, foi comunicada com o tom que muita gente diz admirar: respeito, diálogo, foco na família. Em novembro de 2025, os dois publicaram uma nota conjunta pedindo privacidade e dizendo que seguiriam unidos no que importa.

Tem uma cena que explica muito do que está acontecendo no Carnaval de rua. Chove, alguém abre uma sombrinha no meio da multidão e, de repente, a palavra “tia”, usada como rótulo, vira motivo de riso e de reação. Dessa história nasceu um bloco paulistano criado por pessoas com mais de 50 anos, com a proposta de dar voz e presença a quem nem sempre se viu representado na folia.

Tem uma liberdade que só aparece quando a gente já viveu o bastante para não confundir amor com presença em tempo integral. É a liberdade de dizer: eu gosto de você, eu quero você, mas eu também quero a minha casa. Minha cama do meu jeito, minha cozinha com o meu ritmo, meu silêncio sem explicação.

Outro dia, amiga compartilhou comigo um post da numeróloga Anah Libório sobre envelhecer. Não tinha nada sobre numerologia, diga-se de passagem. Poeticamente, em forma de parábola, ela fala de como foi chegar aos 70 anos.

A violência contra a mulher não tem idade mínima nem máxima. Ela pode começar cedo, atravessar décadas, reaparecer em um novo relacionamento ou surgir quando a vida muda, na separação, no adoecimento, na dependência financeira, na chegada de um cuidador ou na convivência mais intensa dentro de casa.

No começo, a gente acha que separação é um ato, uma frase dita de uma vez, uma mala fechada, uma chave devolvida. Depois descobre que é mais parecido com um período do que com um ponto final. Um tempo em que o corpo chega antes e a cabeça demora.
Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.
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