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“Velhofobia”, uma praga que veio junto com o novo coronavírus

08/08/2022
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Antropóloga Mirian Goldenberg: Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos

Uma das consequências do surgimento do novo coronavírus, alertam especialistas, é o preconceito explícito contra as pessoas mais velhas, exatamente o segmento da sociedade que corre mais risco quando contrai o novo coronavírus.

O site da BBC Brasil entrevistou a antropóloga Mirian Goldenberg, estudiosa do envelhecimento, e ela confirma que, no Brasil, o velho vem sendo vítima de um discurso nada amigável.

“Esse tipo de discurso já existia antes da pandemia: os velhos são considerados inúteis, desnecessários e invisíveis. Mas agora está mais evidente”, afirma a antropóloga, nesta entrevista concedida à Luis Barrucho.

Leia:

A pandemia de coronavírus que se alastrou pelo mundo e chegou ao Brasil evidenciou a ‘velhofobia’ de parte da população, para a qual os idosos são considerados um peso para a sociedade.

A opinião é da antropóloga e escritora Mirian Goldenberg, professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, Goldenberg, que pesquisa envelhecimento há 20 anos, diz que “estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos”.

Segundo ela, esse tipo de discurso, que chama de “velhofóbico”, sempre existiu, mas ficou mais evidente com o coronavírus. Os idosos são considerados grupo de risco para a doença.

“Esse tipo de discurso já existia antes da pandemia: os velhos são considerados inúteis, desnecessários e invisíveis. Mas agora está mais evidente. Políticos, empresários e até o presidente da República já vieram a público dar declarações ‘velhofóbicas'”, diz Goldenberg (em março, o presidente Jair Bolsonaro chegou a defender apenas o isolamento da população idosa, e em vez de da população em geral).

“Homens e mulheres mais velhos, que já experimentam uma espécie de ‘morte simbólica’, ficam desesperados ao constatar que são considerados um peso para a sociedade”, acrescenta Goldenberg, que diz ainda que “muitos dos que disseminam o discurso de ódio e de extermínio dos mais velhos já passaram dos 60 anos”.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – A sra diz que a pandemia tornou evidente a ‘velhofobia’. Mas o que é exatamente essa velhofobia?

Mirian Goldenberg – Me refiro ao termo ‘velhofobia’ para descrever não só os preconceitos, estigmas e tabus associados ao envelhecimento, mas também o pânico de envelhecer que, no Brasil, é muito mais forte do que na Europa, por exemplo. Outros especialistas usam denominações diferentes, como ageísmo, idadismo ou gerontofobia. Mas eu prefiro velhofobia porque todo mundo entende do que estou falando.

O que temos visto nesta pandemia são discursos que chamo de velhofóbicos se generalizando. Políticos, empresários e até o presidente da República já disseram que ‘não se pode deixar a economia parar’ e que os jovens ‘têm que voltar a trabalhar’. Ou até que os velhos vão morrer ‘mais cedo ou mais tarde’.

Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos.

BBC News Brasil – Mas esse preconceito contra os idosos já não existia?

Goldenberg– Sim. Mas não de forma tão explícita. Os velhos sempre foram vistos como um peso para a sociedade, ou seja, já experimentam o que chamo de ‘morte simbólica’. O valor que se dá a essas pessoas mais velhas é quase nulo, socialmente e dentro de casa.

Ocorre que, agora, isso ficou mais evidente.

Temos visto isso não só nos discursos de que os velhos devem morrer para a epidemia acabar logo mas também em memes zombando deles, dizendo que eles são teimosos e desobedientes, como se fossem crianças malcomportadas.

BBC News Brasil – Mas por que a ‘velhofobia’ ficou mais evidente, na sua opinião?

Goldenberg –O preconceito sempre existiu, mas numa situação em que os velhos não estavam tão vulneráveis.

Agora, estão fragilizados de duas formas: de um lado, são a população de maior risco. De outro, perderam seu bem mais precioso: a liberdade de ir e vir.

Antes, podiam ir ao supermercado, à farmácia, dar a volta na praça, frequentar o teatro, o cinema, encontrar com os amigos.

Mas já não podem mais. Estão em uma prisão que não tem data nem hora para terminar.

Há cinco anos, venho acompanhando o dia a dia de homens e mulheres de 90 a 103 anos. Todos lúcidos, ativos e saudáveis. Eles estão desesperados. Têm dificuldade para compreender uma realidade que não fazia parte da vida deles antes do isolamento.

Além de tudo isso, precisam enfrentar todo esse discurso de ódio. Imagine ligar a TV e escutar pessoas que pregam a sua morte 24 horas por dia.

Goldenberg e seu amigo, Guedes, de 97 anos
A antropóloga com o seu melhor amigo, Guedes, de 97 anos

BBC News Brasil – Qual tipo de abordagem a sra acha que deveria ser a mais correta?

Goldenberg – Tenho tentado fazer as pessoas escutarem os mais velhos. Esse é meu propósito desde que começou essa pandemia. Não dá para ficar dando ordem. Precisamos compreender a a realidade deles e juntos com eles encontrar alternativas para amenizar essa situação, de forma que eles não vivam como se estivessem numa prisão.

Isso seria uma morte antecipada para eles.

Ligue para eles, faça atividades junto com eles. Faça com que eles se sintam vivos, úteis, amados, cuidados.

E que eles também possam cuidar da gente.

Quando meu melhor amigo, Guedes (de 97 anos), me liga desesperado, alarmado sobre a quantidade de caixões na Itália, eu lhe digo: ‘Você não pode fazer nada por quem está lá, mas cuide de mim aqui’. E ele se sente importante. Não estou dando ordem. É ele quem está tomando uma decisão de cuidar de si mesmo, de mim e de outras pessoas.

Meu maior temor é como os idosos vão sobreviver emocionalmente durante esta pandemia. Essa é a maior angústia deles.

Por fim, temos que entender que os velhos não são um fardo para a sociedade. Conheço inúmeros casos de velhos cujo filho é alcoólatra, a filha está com câncer, o neto tem depressão. E são eles que cuidam deles, não só financeiramente.

BBC News Brasil – A sra diz que “muitos dos que disseminam o discurso de ódio e de extermínio dos mais velhos já passaram dos 60 anos”. Por quê?

Goldenberg – É urgente que todos aprendam uma lição importante: a única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança e o jovem de hoje serão os velhos de amanhã. Os velhofóbicos estão construindo o seu próprio destino como velhos, e também o destino dos seus filhos e netos: os velhos de amanhã.

Ou seja, muitas dessas pessoas não se enxergam como velhos. A velhice é associada à imobilidade, à doença, à incapacidade, à inutilidade. Por isso ninguém se reconhece como velho, nem os próprios velhos.

BBC News Brasil – A sra acha que esse sentimento é potencializado no Brasil?

Goldenberg – Sem dúvida. Aqui no Brasil sempre fomos a cultura da juventude, do corpo jovem. O corpo considerado belo e saudável sempre está associado à juventude.

O brasileiro fica “velho” mais cedo. Na Alemanha, uma pessoa de 60 anos vai de bicicleta para o trabalho e fala de projetos. A idade não é importante.

Aqui, aos 30 anos, já estamos falando de velhice. Todos têm pânico de envelhecer. Não é à toa que o Brasil está entre os países com maior número de cirurgias plásticas.

Esse pânico não é só físico, mas também simbólico. Perdemos valor para a sociedade ao envelhecermos. Tanto valor que nos tornamos descartáveis. Que podemos morrer para “salvar a economia”.

É disso quando falo que a pandemia deixou a velhofobia mais evidente.

BBC News Brasil – Essa velhofobia de que a sra fala põe em xeque a suposta crença de que o brasileiro seria mais benevolente com o idoso? Se na Europa, ele é colocado em um asilo, no Brasil, ele é trazido para dentro de casa…

Goldenberg –Deixe-me corrigi-lo. São os filhos – e às vezes os netos – que vão para a casa do idoso no Brasil. Não o contrário. Quantos idosos se tornaram chefes de família no Brasil com sua aposentadoria? Eles bancam os filhos e netos. Vemos isso em todas as classes sociais, inclusive nas comunidades carentes.

O maior índice de violência contra o idoso está dentro de casa. Mais da metade das agressões (agressão física, verbal, psicológica e financeira) é feita por filhos e netos.

Portanto, desconheço essa suposta benevolência. A violência contra o idoso está fora e dentro de casa. E está dentro de casa porque a casa é dele, na maioria das vezes.

Imagine o que deve estar acontecendo dentro de muitas casas nessa pandemia. Certamente, veremos um aumento da violência contra o idoso.

BBC News Brasil – Qual a lição a sra aprendeu ao longo destes anos pesquisando idosos?

Goldenberg –O amor que eles têm pela vida. Tudo o que eles fizeram e ainda fazem para se manter saudáveis e lúcidos faz com que a vida deles tenha mais valor.

Não importa se vai ser mais um dois ou três anos. Mas eles têm uma gana de viver que ninguém tem.

E uma imensa gratidão por estarem vivos. É triste, portanto, ver como eles vêm sendo tratados nesta pandemia.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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